"Nada parece impossível a alma que ama". (Santa Terezinha do Menino Jesus)

sábado, 28 de março de 2009

Quaresma: A busca de um homem novo


Quaresma, período de penitência e preparação para a festa mais importante da fé cristã, a Páscoa. Embora seja um tempo penitencial, não é triste e depressivo, como muitos pensam. Trata-se de um tempo especial de purificação e de renovação da vida cristã para poder participar em plenitude e com mais alegria do mistério pascal de Cristo.

Durante quarenta dias somos convidados à experiência do deserto vivido por Jesus na tentação. O deserto, apesar de nos trazer a figura do sofrimento e da penúria, remete-nos à esperança de renascermos para uma vida nova, assim como o povo de Israel que, após a libertação da escravidão no Egito, chegou à Terra Prometida.

A Quaresma nos chama à renovação, conversão e “morte ao pecado”, para que possamos ressurgir para uma vida nova com Cristo na sua Páscoa. As cinzas, recebidas no início da Quaresma, são usadas como sinal desse arrependimento e luto pelo pecado. Dessa forma, reconhecemos que somos todos igualmente pecadores e pedimos ao Senhor a graça da conversão, a fim de mudar nossa vida pessoal e social.

A Igreja recomenda aos cristãos três principais obras de misericórdia que, de modo especial na Quaresma, devem ser praticadas frequentemente: a oração, para o recolhimento e proximidade com Deus; o jejum, renúncia alegre do supérfluo, como forma de ser solidário com aqueles que não têm o necessário; e a esmola, não de forma mesquinha de quem dá o que sobra, mas no sentido bíblico de ter amor e compaixão pelos excluídos e injustiçados. Esses gestos não podem fazer parte do nosso cotidiano como um mero costume ou formalismo, pois acabariam perdendo seu real significado, o de serem um método a serviço da vida, uma forma de possibilitar o encontro do homem consigo mesmo, com Deus e com os outros irmãos.

Como diz o documento “Sacrosanctum Concilium”, do Concílio Vaticano II, “a penitência do tempo quaresmal não seja somente interna e individual, mas também externa e social.” (SC, 110) Por isso a Igreja no Brasil organiza todos os anos, durante o tempo da Quaresma, desde 1964, a Campanha da Fraternidade que focaliza um aspecto de nossa vida em sociedade em que a fraternidade não está sendo vivida, a fim de que, como cristãos, possamos contribuir para que a humanidade alcance este objetivo. Este ano, ela tem como tema “Fraternidade e segurança pública” e como lema “A paz é fruto da justiça”.

Por ocasião da Quaresma, são retirados das celebrações litúrgicas os cantos de Glória e de Aleluia, que manifestam alegria e regozijo para dar lugar a um clima de maior recolhimento e penitência. Pelo mesmo motivo, o ambiente das igrejas requer sobriedade e despojamento não se usando flores nem outros enfeites para orná-lo.

A Quaresma é um tempo privilegiado para intensificar o caminho da própria conversão. Esse caminho supõe cooperar com a graça, para dar morte ao homem velho que atua em nós. Trata-se de romper com o pecado que habita em nossos corações, afastando-nos de tudo aquilo que nos separa do Plano de Deus e, por conseguinte, de nossa felicidade e realização pessoal.

Reflitamos a palavra de Cristo que nos diz: “Não se coloca vinho novo em odres velhos; do contrário, os odres se rompem, o vinho se derrama e os odres se perdem. Coloca-se, porém, o vinho novo em odres novos, e assim tanto um como outro se conservam.” (Mt 9, 17) Portanto, para que a Páscoa seja vivida com toda a sua riqueza espiritual, a Quaresma deve ser vista como um meio de conversão, uma proposta de caminhada em busca do nascimento de um homem novo.

terça-feira, 10 de março de 2009

Shalom - A paz que é tão sonhada.



É interessante como o tempo todo nos percebemos em marcha à procura da Paz. Nossa história anda no compasso desta procura. Não precisa ir muito longe para confirmar este pressuposto; basta olharmos um pouco para nós mesmos, e percebermos quantas vezes sofremos uma espécie de divisão e guerra interior. É a condição humana revelando-se em seus limites de conflitos. É pensando nisso, e também a partir das reflexões da CF – 2009 que me permitir debruçar no seio da Paz e inclinar-me no seio da Shalom, a fim de colher dos seus ensinamentos.

Gosto sempre de explorar o universo das palavras, ainda que nos meus limites, porque acredito que elas nos possibilitam uma gama de significados acerca das coisas e do seu fim último. E, etimologicamente, por exemplo, o significado mais profundo do vocábulo “SHALOM” não é paz, como costumeiramente acreditamos. Shalom significa muito mais que a ausência de guerra, violência. Em hebraico a palavra Shalom tem sua raiz numa outra chamada “SHALEM” – que significa “estar inteiro”, completo. Isso é muito rico e revelador, porque a partir desta compreensão, concluímos que muitas pessoas não estão em paz, porque não estão inteiras, estão divididas “em si e entre si”. Para alcançarmos a paz em nossos espaços, lugares, no seio da nossa família e por conseguinte em toda humanidade, é preciso portanto, que cada um esteja “inteiro”.

É fascinante minha gente trilharmos os caminhos sugeridos a partir desta compreensão sobre a Shalom com a inteireza, porque os desdobramentos desta relação tem sua gênesis em Deus, já me explico: Verificamos nos textos Sagrados a tentativa humana de se estabelecer a paz, e ao mesmo tempo a incapacidade humana de conseguir e mantê-la. Deste modo, fica-nos evidenciado que a última garantia para a paz não reside tão somente em Instituições humanas, mas em Deus. Um exemplo disso encontramos no Profeta Isaías 54, 10 em que a promessa de Deus a seu povo é bem clara: "As montanhas podem desaparecer, os montes podem se desfazer, mas o meu Amor por você não acabará nunca, e a minha aliança de PAZ como você nunca será quebrada." Eis que a promessa se cumpre com o Messias, porque ainda segundo o Autor Sagrado, "Aquele que será enviado para nós será chamado Conselheiro Admirável, Deus Poderoso, Príncipe da Paz" ( Is 9, 6 ss).

Observemos que é do coração de Deus, portanto, que brota a verdadeira Paz, a Shalom esperada, isto é, a bonita possibilidade de nos tornamos inteiros em Deus, em nós mesmos e no outro. O cultivo deste broto se dá em Jesus, porque "Ele de fato é a nossa paz: do que era dividido, Ele fez uma unidade" (Ef 2, 14). E é bonito como Ele próprio, o Príncipe da Paz, nos convence disso ao afirmar com docilidade: "Deixo-vos com vocês a Paz. É a minha Paz que eu lhes dou; não lhes dou a Paz como o mundo a dá. Não fiquem aflitos, nem tenham medo" (Jo 14, 27). "Eu digo isso para que, por estarem unidos a mim, vocês tenham a Paz" (Jo, 16, 33 a).

Muito mais teriámos a refletir sobre a Shalom. A reflexão em Deus nunca sem esgota. A cada dia contemplamos novos horizontes. Todavia, de tudo isso resta-nos a certeza que precismos nos nutrir da Paz que está enraizada em Jesus; precisamos o tempo todo nos dispor dela e cultivá-la naqueles momentos em que ficamos fragmentados, divididos, separados, a fim de que em nós o "homem inteiro" se manifeste e "triunfe em nossos corações a Paz de Cristo, para a qual fomos chamados" (Cl 3, 15 a). Shalom!!!